A demissão de Relvas

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Miguel Relvas demitiu-se hoje, com quase um ano de atraso.

A 24 de Maio do ano passado, escrevi dois textos no blogue em que defendi a demissão do ministro, ainda antes de rebentar o escândalo da licenciatura, numa altura em que ele ainda estava longe de ser o ministro mais odiado da história dos governos. Nestes mesmos textos, falei da relação de amizade que tive com o agora ex-ministro, e o facto de isso não condicionar a minha opinião – a de que ele deveria demitir-se. Defendi a saída do governo há um ano, há nove meses, há três, há um, ontem. Desde o caso das pressões sobre a jornalista do “Público” que Relvas não tinha condições para continuar no Governo. Ele não saiu, resistiu até muito para lá do razoável, e acaba por ir embora agora, quando já ninguém acreditava que isso fosse possível.

Não sei o que está na base desta demissão, mas acredito mais que sejam razões pessoais do que políticas. É possível que haja uma relação com o relatório do Ministério da Educação relativamente à licenciatura. Talvez sejam, até, as duas coisas. O que sei é que neste ano Miguel Relvas conseguiu desgastar-se ao ponto de não mais voltar a ter condições para ocupar cargos políticos relevantes em Portugal – pelo menos nos próximos 10 ou 15 anos. Não conheço uma só pessoa que acredite nele, que veja nele um político competente, um homem sério. E, em política, como em muitas outras áreas, é muito importante parecer sério, criar nas pessoas a percepção de que somos competentes no que fazemos.

Na altura – em Maio do ano passado -, bem como neste último ano, muita gente tentou aproveitar a minha revelação – de que sou amigo (pouco próximo, na verdade) de Miguel Relvas – para tentar atacar-me, tentando pôr tudo no mesmo saco. “És amigo desse patife, então és igual”.

Nunca fui amigo do político, mas do homem. O facto de ele, como ministro, ter falhado em toda a linha não faz dele pior pessoa do que era. Tenho amigos que são extremamente competentes no que fazem, bem sucedidos, inteligentes, com bom feitio, e tenho amigos menos competentes, desempregados, irascíveis, conflituosos, menos honestos, mas que sempre me trataram bem, sempre foram meus amigos, estiveram lá quando eu precisei, eu estive lá quando eles precisaram. Não confundo as coisas.

Virar as costas a uma pessoa que sempre foi cordial, simpática, amiga, prestável comigo apenas porque ela está em baixo, a ser alvo de chacota nacional, isso sim, seria canalhice.
Acredito que tudo o que o Miguel Relvas fez no Governo foi com a convicção de que estava a fazer o melhor pelo País. Em muitos dossiês as coisas correram-lhe mal. Noutros teve mais êxito. No global, acho que a sua passagem pelo Governo foi bastante negativa.

No entanto, a única coisa que lhe desejo é sorte.

1 Comentário

  1. É preciso ver as coisas como são: Sócrates já tinha o curso quase concluído, enquanto que o Relvas teve tudo de bandeja!! Não é bem a mesma coisa. Que mania que as pessoas tem de colocar tudo no mesmo saco!!

  2. Canalhice é enganar como ele enganou e engana.
    E aqui deve-se confundir o homem com o politico, porque é a única hipótese. Ele é uma e a mesma coisa.
    É um canalha, chico esperto e não podes dizer o contrário.
    Canalhice é a forma como ele chegou onde chegou e como o fez.
    Já vai tarde, mas também te digo, que agora sim, vai para melhor e sempre quero ver para onde vai ganhar o dele.

  3. Precisamente! Verificaram-se irregularidades no grau académico de um ministro, o mesmo demite-se.
    Há dúvidas na licenciatura de um primeiro-ministro. Não há uma investigação sólida e portanto não há consequências. Não acontece nada e o mesmo primeiro-ministro mantém-se no governo até perder eleições e depois vai estudar (alegremente) para Paris.
    Será que o país inteiro se esqueceu disto??? Este país não tem um pingo de memória política.
    Ana

  4. Acredito piamente que o Relvas, foi convidado a demitir-se. E só se demitiu porque efetivamente se conseguiu provar que a licenciatura não era real. Nuno Crato tinha o relatório há mais de dois meses.

    Pois se o Ministro Relvas tivesse vergonha na cara, já se tinha demitido, há mais tempo.

  5. Tal como tu acho que chega tarde. Também não acredito que sejam motivos políticos a ditar esta decisão e acho ainda que será o mesmo caminho que Passos Coelho acabará por seguir.

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

  6. Vou pegar nesta sua frase:
    "E, em política, como em muitas outras áreas, é muito importante parecer sério".

    E vou destacar esta parte – "parecer sério". Entretanto vou resumir-me à minha insignificância e, perguntar se não é mais importante 'ser' realmente!? Ser genuíno! Por exemplo. Ser honesto! Por exemplo. Ser de confiança! Por exemplo.

    O 'parecer' não me soa bem. 'Parecer' soa a algo, ou a alguém em quem não se deve confiar. Em quem não se pode confiar. É a tal coisa do… parece, mas não é.

    Eu gosto mais de gente, que é, realmente qualquer coisa. O que quer que queira ser. Quer eu discorde, quer não. Quer eu goste, quer não.

    Agora, gente que acha que é importante 'parecer' sério. deixa-me muitas dúvidas. Muitas mesmo.

    E também vou pegar nesta sua outra frase:
    "Acredito que tudo o que o Miguel Relvas fez no Governo foi com a convicção de que estava a fazer o melhor pelo País".

    Peço desculpa pela minha frontalidade (ou talvez não) mas acredita mesmo nisto?

    Ou então Miguel Relvas precisa mesmo de voltar a estudar e, perceber o que significa estar convicto de estar a fazer o melhor pelo seu país e pelos portugueses. Não me parece que os portugueses sejam pessoas que não percebam, quando um politico está a fazer o melhor pelo país. Logo pelas pessoas que vivem nesse mesmo país. Ou seja por eles. Os portugueses.

  7. E á conta desse político a jornalista demitiu-se do jornal…esse sr. seu amigo não fez outra coisa senão dar cabo da vida de muita gente. Portanto como amigo meta lá juizinho na cabeça dele e que seja como você!! Não o conheço pessoalmente mas sou fã do blog e pelo que leio há dignidade em si, coisa que esse "amigo" não tem.
    Pena que sai…mas já com uma reforma assegurada!!! Shame on him…

  8. "Acredito que tudo o que o Miguel Relvas fez no Governo foi com a convicção de que estava a fazer o melhor pelo País"….pois, ser esperto não é sinónimo de ser inteligente e acho que ele é só esperto, isto sem querer ofender ninguém. O facto de ter arranjado maneira de tirar um curso superior sem estudar, para mim, é mesmo ser chico esperto. Isso e outras coisas. Bjs. Maria_S

  9. O problema fulcral em torno de Miguel Relvas prende-se com a sua licenciatura, não pelo curso em si, mas pela frause e mentira que ensombra à volta disso. Enquanto continuarmos a compactuar com este tipo de falsidades não conseguiremos evoluir.
    A cunha e o desmérito têm de acabar.

    Marta

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