A banalização da Grândola

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Esta moda de interromper os ministros ao som do Grândola Vila Morena já começou a ter o efeito inverso ao pretendido e, mais grave, está a levar à banalização e ridicularização de uma música que corre o risco de deixar de nos arrepiar de cada vez que se faz ouvir, pelo simbolismo que acarreta (ou acarretava, vá).

Cantar a Grândola Vila Morena no Parlamento, quando Passos Coelho falava, foi uma das contestações mais inteligentes e bonitas a que assisti na nossa democracia. Foi um acto pensado e executado para um determinado dia, mas acabou por ter um efeito contagiante, o que até poderia ter sido positivo, caso não se tivesse banalizado. Os rostos da actual crise não são todos os ministros do Executivo, não são todos os dirigentes do PSD ou do CDS, não são todas as pessoas que votaram neste Governo. Os alvos devem ser bem definidos e os tiros têm de ser certeiros, para que as coisas funcionem.

O que se está a passar, com a Grândola cantada nas escolas quando os putos querem reclamar da falta de condições numa casa de banho, com a Grândola cantada por funcionários de uma fábrica que não concordam com a política de horas extraordinárias ou com a Grândola cantada de cada vez que qualquer ministro sai à rua só está a contribuir para que uma canção que simboliza a conquista da Liberdade num ponto de viragem para a democracia se torne numa anedota. E isso não devia acontecer nunca.

Outra coisa que é importante que se perceba: a Grândola Vila Morena não é património da Esquerda. É património cultural do País. Todos os que são pela Liberdade têm o direito de a sentir como sua. Numa conjuntura em que muitas vezes o discernimento parece tolhido é preciso recordar a muita gente que a esmagadora maioria das pessoas que votam PSD e CDS são favoráveis a Abril, são favoráveis à Liberdade e à democracia. Não é por alguém votar no PCP ou no Bloco de Esquerda que é mais democrata do que qualquer outra pessoa. E esta confusão, muitas vezes, não está clara na cabeça de muita gente.

39 Comentários

  1. Então bom vinteecincodoquatro!
    Esse vídeo deveria esclarecer-me em relação a que ponto, exactamente?
    Eram uns fixes, os latifundiários! A sua história da carochinha é linda, agarre-se a ela! E chame Catarina Eufémia à sua filha!

  2. O último parágrafo deste post explica bem as razões pelas quais não vejo essa banalização a ocorrer. As pessoas "apoderaram-se" desta canção, pelo seu valor , pela carga emocional e "viral" que ela contém e que cantada nas circunstâncias actuais em que a maioria dos portugueses vive é uma arma. Sem balas, sem sangue derramado, consegue dizer aquilo que vai na cabeça e no coração de muitos portugueses. São palavras que valem mais que muitas outras palavras.
    Que miúdos a cantem porque falta papel no WC por essas escolas fora, não me diz mais do que serem ainda miúdos. Não é por isso que a canção é banalizada.

  3. Concordo a 100%. Se se querem manifestar, façam-no com propósito, com competência, com dignidade. Não para ver quem é que faz mais alarido. Não para espalhar o desespero e a ignorância sobre assuntos fulcrais às vidas de todos nós.

  4. pois não conhecem não, como é natural, é um alentejo constituído por meia dúzia de latifundiários que antes do 25 DE ABRIL (25/4?!? isto não é o nineeleven) exploravam o povo da região.
    "comunismo, ESQUERDA, socialismo e todos os ideias que daí vêm" é priceless

  5. Como é triste ler esta quantidade de incultos, talvez jovens, talvez todos com emprego e alguns até bem na vida, darem uma prova de repito incultura e preocupação por sentirem medo de perder os seus privilégios. Estudem mais que o Relvas e trabalhem mais que o Passos e Cª.

  6. Totalmente de acordo.
    Mas falta apontares um grande culpado: a comunicaçao social que esta sempre a procura dos "momentos-para-arrepiar-o-pessoal". Por em grande destaque "grandola vila morena cantada em Espanha", "grandola vila morena chega a Inglaterra". Vais ler o conteudo da noticia e nao e bem assim…
    A comunicaçao social nao tem a noçao do grande poder que tem (se o tiver entao ainda e mais grave) na influencia no comportamento das pessoas.
    Espero que se consiga ler isto bem: estou sem pontuaçao no teclado…

  7. Não podias ter dito melhor.
    Está a tornar-se cansativo ouvir o Grândola Vila Morena em tudo o que é canto e esquina. Agora, cada vez que a minha mae reclamar comigo porque a cama está por fazer, eu vou dizer o quê? "Grandola Vila Morena…" Será que funciona?
    RIDÍÍÍÍÍÍCULO!!!!
    Está a ser tão ridicularizada que até já se humilham e enganam-se na letra. Se não sabem o que estão a fazer mais vale ficarem quietinhos. Os portugueses sempre foram muito mais "pro" a chamar nomes do que a serem originais e criativos.

  8. Não podia concordar mais.
    O primeiro protesto, o do parlamento, em que cantaram a musica foi um marco. Fez com que os políticos percebessem que não andamos a dormir e que a forma como o país está nos deixa a todos preocupados pois as nossas carteiras estão cada vez mais vazias mas as nossas obrigações são cada vez mais.
    Este primeiro momento foi tão simbólico que foi elogiado pelos nossos vizinhos espanhóis, chegando mesmo a ser cantada numa manifestação espanhola.
    Infelizmente o pior aconteceu. Banalizou-se a Grândola, agora por tudo e por nada se canta uma música que faz parte da história deste país.
    Espero sinceramente que não se ridicularize ainda mais esta musica!

  9. Ninguem da dita esquerda invocou a musica como seu património. Os políticos do partido da maioria é que vieram logo indignados reclamar direitos sobre a musica.
    Isso é desde logo sinal que se sentem melindrados com a mensagem transmitida pela musica.

  10. Quando se fala no 25/4 em Portugal, as pessoas na generalidade só falam do bom que aconteceu em Portugal, da revolução pacifista, do direito à liberdade.
    Mas a história nunca é contada na totalidade, ou melhor, só se fala no que foi bonito para a história.
    Num Alentejo que as pessoas não conhecem, a música tem uma conotação negativa, significa comunismo, esquerda, socialismo e todos os ideias que daí vêm, significa que pessoas deixaram de ter casa e terras, porque em vez de liberdade as pessoas passaram a viver em libertinagem, ocuparam terras, ameaçaram pessoas, deitaram fogo aos campos e gritaram liberdade (?). Foi este o 25/4, nos direitos a que tanto apregoaram, esqueceram-se dos deveres e a liberdade que tanto almejaram passou a libertinagem. Por se viver no saudosismo do passado é que Portugal parou no tempo.

  11. Desculpe, mas a canção não é só pela Liberdade (como agora se quer fazer crer, quando se diz que com ela se está a tirar a liberdade de expressão dos ministros! como se…). é também , e acima de tudo, pela Igualdade. E a Igualdade, sim, é um valor ideológico da Esquerda. Em cada rosto Igualdade

  12. Penso que é mais uma prova da propensão para o sentimentalismo. Como disseste é uma cantiga bonita, com carga histórica mas na actualidade não passa muito mais do que isso. No 25 de Abril de 1974 teve uma função de ser uma senha, actualmente a única função que tem é de servir de catalisador de um saudosismo revolucionário.
    Penso que a atitude tem que ser a inversa. Menos emoções, mais cabeça.

  13. exactamente o que eu penso. acho que as pessoas andam tão revoltadas que se esquecem que as reclamações para surtirem efeito têm que ser direccionadas e não generalizadas e no caso do uso desta canção, o cuidado deveria ser ainda maior, devido ao simbolismo que a acompanha.

  14. Concordo plenamente, tem de ser usada com cabeça tronco e membros…
    "Não tarda, e a Grândola vira moda viral, tipo harlem shake e afins." não teria dito melhor, breve em todos os sítios temos pessoas a cantar a Grândola, mendigos, homens do talho, lojistas, ou até mesmo a passar na rádio, o que se passa é que as pessoas de agora nao tem moderação, e algumas nem sabem o que significa, estão a vulgarizar as coisas de uma maneira tal que aquilo que foi uma vez bonito se torna uma chatice e vulgar…é pena…

    ELA

  15. Também concordo contigo e até já tinha comentado isso aqui em casa….nao se pode"generalizar" a música para tudo, começa a cair no ridículo. É pena!

    Coisasquetaiseafins.blogspot.pt

  16. Li uma crónica do Henrique Raposo que disse tudo o que eu própria andava a pensar sobre este assunto: "Uma música criada para promover a liberdade de expressão foi assim transformada numa arma contra a liberdade de expressão." Esta é a ironia da Grândola Vila Morena nos dias que correm.

    pippacoco.blogspot.pt

  17. Não podia estar mais de acordo,Arrumadinho. Não tarda, e a Grândola vira moda viral, tipo harlem shake e afins.
    Não que não concorde com as manifestações,bem pelo contrário.Mas, nos tempos que correm, já ninguém quer saber…o desespero e revolta levam a manifestações a toda a hora, em todos os locais e com mil alvos oiu mais.
    É verdade que muita gente, de variados quadrantes politicos,lutam e valorizam a democracia e a liberdade. Porém, e não sei se já reparou, os comentários que se ouvem em relação às pessoas que cantam o Grândola, é que são " esquerdalha chupista de estado", " esquerdistas sem noção" ou " lá vão os comunas fazer barulho". Sim,há muita gente de esquerda com ódio extremo aos de direita, sejam estes democratas ou não. Mas há ainda mais anti-esquerdismo faccioso. Repare numa situação tão simples como esta: sei que jovens da Juventude Comunista do Porto, foram todos identificados pela policia e ficaram sem os respectivos materiais, porque estavam a pintar um mural de protesto contra os investimentos que há na banca,enquanto os cortes nas prestações sociais,na educação e afins são cada vez maiores. Logo no dia seguinte ,aparece uma noticia no JN, a falar de como os jovens foram todos identificados, por ser uma actividade ilegal ( o que nem é verdade). Qual não é o meu espanto, que há dias fazem uma reportagem na TVI acerca de como os murais politicos estão de volta e em força, sendo que a plataforma "que se lixe a troika" entrevistada e "elogiada" por tal, enquanto procediam a dita pintura. Não deixa de ser irónico como os mesmos foram entrevistados como revolucionários e "originais", e o melhor de tudo é que ninguém foi identificado pela policia e ainda tem direito a tempo de antena. Mas lá está, a "esquerdalha" é que é arruaceira e vândala.

    Percebe onde quero chegar? Nem tanto ao mar,nem tanto a terra. Cada lado com as suas razões, e nem uns são todos comedores de criacinhas /comunas sarnentos/ chupistas de subsidios nem outros são todos fascistas reaccionários/capitalistas assassinos.

    P.s – desculpe se me alonguei,mas achei que até se adequava ao que disse neste post. Obrigado e continue assim (:

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