3%: a série da Netflix que todos têm de ver

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Foi com uma canção que ela me tocou o coração. Durante algum tempo, muita coisa levou-me à paixão, mas muitas das paixões são só química, pele, e foi preciso aquela canção para que eu e ela nos ligássemos como se ligam as coisas unidas pelo coração.

Dediquei grande parte do meu feriado a ver “3%”, a primeira série brasileira da Netflix. A expectativa estava lá no alto, porque se há gente que sabe de televisão e cinema são os brasileiros. Comecei, por isso, cheio de entusiasmo.

A história futurista tem qualquer coisa de “Divergente” meets “Casa dos Segredos” with a little bit of “The Walking Dead”, mas sem zombies. Sei, talvez não seja a forma mais clara de apresentar a série.

Simplificando: num futuro distante, o mundo está dividido em dois: Continente e Maralto. No Continente vivem os miseráveis, 97 por cento da população, e no Maralto vive a elite (os restantes 3 por cento), que é escolhida, numa espécie de casting, a que chamam Processo. Anualmente, todas as pessoas nascidas num determinado ano têm a sua oportunidade (única) de entrar no Processo, para tentarem passar do Continente para o Maralto. Apenas 3 por cento são escolhidos, e passam a integrar a elite. A ideia base é esta.

A série acompanha um grupo que chega à fase do Processo, e, ao longo dos oito episódios, vai-nos contando a história de cada um deles, bem como dos habitantes do Maralto que estão envolvidos no Processo de escolha dos candidatos, em particular Ezequiel, o responsável por todo o casting.

Onde é que entra aqui a parte de “Casa dos Segredos” e “The Walking Dead”? Muito do Processo resume-se à observação. Ezequiel vai tentando perceber como é que os candidatos reagem perante situações-limite, situações de reclusão, de conflito intenso, sabendo sempre que estão a ser observados pelos responsáveis do Processo de escolha.

É muito interessante observar a curva de várias personagens, que se deixam transformar por completo ao longo do Processo, e conforme vão sendo postos à prova com diversos obstáculos que revelam o melhor e o pior de cada um. Quando as pessoas que não gostam de “The Walking Dead” usam o argumento de que “aquilo é uma série de zombies”, é precisamente isto que costumo dizer, que não, que não é, que “The Walking Dead” é uma série sobre a natureza humana, sobre como o ser humano tem a capacidade de se transformar perante situações-limite, perante a reclusão, o desespero, o sentimento de perda, a solidão, o medo. Os zombies são apenas o catalisador de tudo isso, são o lado visual menos importante da série, estão ali unicamente para causar o tal medo, obrigar à tal reclusão, que leva a tantos e tantos conflitos.

Vi os primeiros cinco episódios de “3%” em poucas horas. Fui gostando cada vez mais, fui-me envolvendo com as personagens e a história, fui querendo sempre perceber para onde as coisas estavam a caminhar. Mas foi ali no final do quinto episódio que a minha relação com a série mudou. Passámos da paixão ao amor (sou um fácil, bem sei). E a culpa foi da Mônica Salmaso. É ela que interpreta, de forma sublime, o tema “Último Desejo”, que se ouve quando uma das personagens está numa das tais situações-limite. Toda a cena musicada, que decorre 10 minutos antes do final do quinto episódio, é das coisas mais bonitas que vi este ano em televisão. Foi este o momento que me agarrou, e me irá agarrar para sempre, a este “3%”. Nem que seja só para sentirem o que eu senti, vale muito, muito a pena verem isto. Será tempo ganho na vossa vida.

Deixo-vos aqui a versão de Maria Bethânia deste “Último Desejo”. Também é ótima, mas ainda gosto mais da da Mônica Salmaso. Se preferirem, o António Zambujo também a canta — gravou-a na “Rua da Emenda”.

1 Comentário

  1. “Quando as pessoas que não gostam de “The Walking Dead” usam o argumento de que “aquilo é uma série de zombies”, é precisamente isto que costumo dizer, que não, que não é, que “The Walking Dead” é uma série sobre a natureza humana, sobre como o ser humano tem a capacidade de se transformar perante situações-limite, perante a reclusão, o desespero, o sentimento de perda, a solidão, o medo.”

    Ando à uma vida a dizer isto sobre Walking Dead e quase toda a gente faz um esgar e pensar “yah yah, é masé de zombies”. É tão mas tão mais do que zombies. E agora com o Negan….uma pessoa quer odiá-lo, mas ele é tão likable, que só queremos saber que mais vais fazer, como vai reagir, o que se vai seguir. Porque o Negan não é um Governador, um sádico, um psycho. Ele lidera pelo medo, porque o medo é a melhor arma que tens.

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